terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Funda

Se não tivesse nascido
a terra seria um plano
divino em nevoeiro
perdida em devaneio

estirado ao campo
desacelera o tempo
atira ao vento frio
o fio de meada solta.

Atravessa as searas
mortas pelo fogo
avessas ao contato
vermelhas carmim

vem pra vida escura
serenata em via suja
dum bordel escuso
à praia pra afundar

nas ondas sumo
de fruto doce
azul belicoso
verde pastoso.

Pega a espada
velha, oxidada
e vai morrer
na guerra

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Aparte

Se poesia em forma
quando a pia entorna
toda lona a cobrir
o chão em lama,
a cama aceita a sina

Soa o sino 
em sono esperto, 
peito aberto
no deserto leito
ao feito estrito
da longa noite,
suspira em pira
a partida acima.
Expira a vida.

De toda cria mundana
espanta as pestanas
dos cílios torpes,
tão fartos de enxergar.

Das torres brancas,
o sol ameno
o pátio enxágüe 
de todo carma,
de toda onda.

Abraçar os cortes, velejar a morte
pensar na sorte e esperar o porte
a crescer em nada, subir a escada
rumo ao clarão dos santos.
Esquece escolha, esquina e tino,
fenece em nuvem e expia as curvas.

Das brigas polidas a pedra
ao aço esmaltado em tiras,
perfeitas ameias de pérola.
A espera em torno da causa
ondas de engodo sedoso.
Forja os trilhos em alumínio
segue rumo ao destino:

É findo.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Da Roda ao Frio

Me retiro da roda,
pra tapear os buracos.

Desfaço as juras,
já todas rompidas
abraço as ruas
uma última vez.

Sem choro
(é mentira)
o dia se esvai.
Por medo
(é verdade)
o salto não sai.

E se algum dia
alguém, qualquer,
achar essas linhas
me enforquem.

Acabaram-se os dias.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Saudade

Depois que a noite esqueceu meu nome vaguei pela alvorada tingida de saudade. Às costas, um choro cortante a rasgar do sol fraco. Daquelas ameias às moscas, cercado pela poeira cada vez mais grossa, a memória da voz rouca a roçar a periferia da cidade de onde nunca saí. Não foram os anos, mas os desmandos de um coração sofrido quem deram adeus a ela.

E nunca mais evoquei a tal lembrança.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Ideal da Cavalaria

Quando visto esse colete é que fumo. Uma roupa feita de fumaça. Dentes tornados cigarro. Uma língua por cinzeiro. Eu durmo vestido, Tomo banho vestido. Se uso capa é por cima da fumaça. Maço por escudo, isqueiro por lança. Pronto, estou armado contra o mundo. A tática é incomum: serpente e leão. Força, velocidade e brutalidade. Um estilo que fere ao proteger.

Me sagrei cavaleiro por conta própria. Fiz minha vigília no bar, me ajoelhei no asfalto, tocaram meu ombro com um casco vazio. Das cinzas não renasço, não cato os cacos. O que vem dos restos é a escória, o lixo reciclado: isso não serei. Ou me aprimoro ou morro. Não refaço o que restar da total aniquilação, acabo: numa derradeira barricada, no fim da última batalha quando os portões se fecharem, sob a luz das estrelas apagadas.

Não combato pra vencer, mas pra morrer, restar cinzas, espalhar urnas, reconstruir ídolos. Refazer heróis é a minha sina. Se pareço desconstruir é porque a essência é deturpada na forma, porque o símbolo está desgastado. É megalomania querer restaurar o mundo, preservar a honra, ressuscitar os mortos.
           
Minha Alice não voltou do país das maravilhas. Blackthorne morreu no naufrágio. Aragorn não foi coroado. Artur é um mendigo. Gilgamesh, um gerente. Imperatriz Criança é atendente de MacDonald's. Cavalguei com Theóden para a morte, arranquei o tesouro do dragão junto com Siegfried. Me sacrifiquei com Aquiles por uma guerra sem sentido.

Foi o orgulho dos homens que me matou. A inversão da moral, a proclamação da república, a guerra do Paraguai. Meu Ragnarok foi a pós-modernidade. Nasci desgarrado de meu tempo primário, do diabo ativo na peste negra, das profecias de São Malaquias. Sou da espingarda polida, bomba atômica. Quando cota-de-malha é Kevlar, quando bravura é favela.

A falácia que me mantém de pé, a verborragia que me guarda a fé. O niilismo que me protege a alma. É uma crise da mediocridade. Sou produto da contemporaneidade, essa coisa covarde desde Napoleão. Sou ocidente, sou cheque especial. Sou futuro irrealizável. Sou conta a pagar.
           
Nada mais banal que a loucura.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Verão

No raio de sol, a viagem é mais limpa.
Não tem a sujeira do armário velho,
poeira sobre a casca do escaravelho,
ou a cozinha manchada de tinta.

Sem os fantasmas, o assombro é outro:
no vermelho do horizonte distante
alcançado para além do sextante
onde montanhas a beijar o Poente.

Não é da boca que sai a paixão:
calada a caneta, rabisca perene.
Assume o papel de língua esperta
esgrime contra o peito deserto.
     
Te quero desperta.
Pra ouvir o som mudo da chuva,
se vestir de trovão na manta,
soprar terremotos no ventre.

Nem que seja pra não sentir frio,
mesmo que passe pela rodovia em curva,
apesar dos desvios em nossos destinos.
     
Escrevo cartas silenciosas
carregadas por pipas ao vento.
Meu relógio parou faz uma hora
e não sei se você volta.

É como o passar das estações
quando o inverno aguda o verão.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Capuz de Bandido

Agarrava minha mão com força,
beijava de mordida armada,
não perguntava se era amada.
Desmontava a minha cerca.

Jogava póquer se apostando.
Trancava a porta e sumia,
se jogava da janela quando
enjoada do som da boemia.

Não penteava os cabelos,
esquecia pra trás os chinelos,
e me matava de desespero
com seu amor efêmero.

Eu, que sou dos meus silêncios,
que nunca saí do lugar, reverencio
esse espírito de fogo livre
saído d'um sonho que tive.

Agora me esquece, indolente,
como se eu fosse carnaval.
Sai em busca do vendaval
deixando a mesa, inadimplente.

Agora me leva, temerária
à borda do despenhadeiro:
me ameaça, usurária,
por ti viro bandoleiro.

Assaltar as estradas cruas,
dedos soltos, mãos nuas
pra resgatar pedaço mofado:
esse meu peito inchado.

Feito cadáver no deserto
devoro vermes de areia
só pra te converter a atéia:
me expulsa de peito aberto