quarta-feira, 30 de junho de 2010

Reflexão Sobre Latidos Noturnos

São os cães, vira-latas, em uníssono desacordo, quem chamam a solidão.

Ao clamar pela Lua, em desespero e paixão, declaram-se irremediavelmente solitários e, ao fazê-lo, tornam impossível qualquer mudança para o contrário. Uivam, gritam, chama e sofrem pelo inalcançável: a Lua. Se rebaixam, ao se considerar de uma estirpe inferior e, portando, fadada a uivar e rastejar pelo objeto de desejo. É o distanciamento, produzido e nutrido pelos próprios cães, que os rebaixa, humilha e faz sofrer para sempre a dor da separação... A perpétua solidão... O vazio, vácuo do espaço sideral que separa cães e Lua.



O que falta aos cães? Será a astúcia para atravessar o espaço negro até a Lua? Ou os meios para realizar tal empreitada? Ou será a coragem e a ousadia?



Àqueles acostumados a uivar, enfurnados em sua tristeza, paralizados pela falta que não é preenchida, é impossível mover na direção da luz, sublime e prateada. A separação e o luto são por demais cômodos; é como se a ascensão fosse uma medonha transformação e a busca por isso fosse a mais dolorosa das provações. Tal é o pavor dos cães diante da possibilidade de alcançar a luz. Um pavor tamanho que só pode ser igualado à dor da distância e da falta da Lua.



A própria Lua, em sua palidez fria, parece não ouvir os uivos em desespero. Age como se fosse incapaz de notar os pulguentos aos seus pés; como se fosse incapaz de se mover de seu lugar no céu. Mas essa é a mais cruel das mentiras já contadas pelas mulheres: a Lua ouve cada ganido desesperado por atenção e pode, a qualquer momento, se aproximar ou se afastar, porém, deliberadamente, não o faz. Se mantém imóvel, distante, mas à vista. Não demonstra nada, mas só pode se regozijar com o sofrimento que causa. Afinal, por que outro motivo permitira o desespero de tão barulhentos carentes? Talvez sinta pena ou orgulho por ter tantos admiradores. Mas não creio. Crer em tal faria da Lua uma vaidosa fútil. Embora haja um toque sombrio de vaidade em sua luz, nada há de fútil na Lua. Há, isso sim, um prazer sinistro na cacofonia de solidões que alimenta a pureza da luz.

E de tudo sabem os cães! Não são idiotas, afinal de contas. Sabendo da triste realidade a que estão confinados, uivam à Lua, em um misto de solidão, sofrimento e clamor por ajuda. E a Lua, fria e prateada, se abstém da devida resposta.



Bar do Valle, 21/Dez/2009

quarta-feira, 23 de junho de 2010

solteiro e só

Viu o sol nascer
regado a pão e leite,
uma noite mal dormida
e o sono nas cobertas.

Pegou o ônibus na penumbra
não pensou nos filmes
nem nos amores
perdidos e alugados,
nas gavetas desarrumadas
armário desmontado.

O colchão vazio não mente
a distância nem a companhia.
É solidão nos dias frios,
é a garota nos dias tristes
e a falta dos cigarros.
O cinzeiro e as garrafas
vazias num anagrama;
liberdade e sonhos perdidos.

Quem não dorme sonha?
Quem não ama sofre?
Quem não tem fome come?
Sede de cigarro barato
sem isqueiro.
Viu a lua surgir nas nuvens
a apatia de um dia mal vivido
e o sonho?

O tempo passou
e as mulheres levaram
amores e amigos, a alma
e a peça da geladeira quebrada.
Um coração dormente de penas
Galinha assada na páscoa.
Morar com a mãe
Nunca mais.

domingo, 20 de junho de 2010

Cabelo de Noite Passada

Moça do cabelo feito de noite,
do sorriso feito de doce
do rosto feito de maçã
e do beijo feito de sorte.

Vai pra terra da fantasia
sozinha
e volta perdida,
feliz da vida.

Acorda em paz,
perde o sono
e ganha um sonho.
Sentada
no balanço da vida
contando estrelas
que o céu azul
não mostra -
deixa o embalo
levar o que foi.

Deixa pra trás!
Se o que passou
não volta mais
vale a pena correr?
É apressa, o passo,
não perder o trem.

Perdido sou eu
por gostar de você.
Perdido é o tempo
que passou pra nós.
Perdida a nossa infância,
a sua inocência,
e o meu cata-vento
ficou naquele
banco da igreja.

Você quem gostava
da camisa xadrez;
faz lembrar pipoca
e a festa junina
que eu não te beijei.
Do guaraná quente
que a gente dividiu
e a cerveja gelada
que você não quis.

Deixei os anos,
cresci a barba
e te convidei
pra um cinema.
Você não foi.

Saiu dançando,
mundo afora em claro.
Madrugada gasta
com a luz acesa.
Não vi mais aquela
sua saia amarela,
não encontrei mais
sua mãe, seu pai.
Não lembro
do nome do seu tio,
o chato. Seu primo,
o alto.

Te vi outro dia
dobrando a esquina
e não chamei.

Seu nome ficou mudo
e o meu calou a fundo.
Mudou de rumo
e eu te perdi

de vista.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Rumos

Tem um bom tempo que não posto por aqui comentários e reflexões minhas. A razão é porque eu acho muito chato; as pessoas não querem saber das minhas mandingas e da minha vida triste (pelo menos enquanto eu não for um best seller, hohoho).

Além do mais, se eu resolvesse postar um parágrafo que fosse mais pessoal, teria de me explicar a respeito da história que eu disse que ia continuar. Por isso, por um tempo, preferi fingir que não tinha acontecido nada, mas a verdade é que não posso ignorar isso pra sempre. Algumas pessoas estavam acompanhando aquela história e eu pisei na bola com isso. Se eu trabalhasse pra alguma pulp fiction eu estaria bem encrencado agora e provavelmente não conseguiria mais publicar.

Por isso gostaria de pedir desculpas a quem esperava pela continuação da história do Cavaleiro. A verdade é que eu não tenho disciplina pra oferecer uma publicação periódica. Enquanto eu não tiver aquela história bastante adiantada, infelizmente, não posso apresentá-la aqui.

O que me leva aos rumos que pretendo dar ao blog. Como perceberam, os últimos posts foram todos de poesias (tirando o último mesmo, Manchester Noir), mas isso não quer dizer que eu vá fazer desse um blog de poesias. A experiência com histórias continuadas me mostrou que eu preciso, pelo menos por um tempo, me concentrar em coisas fechadas, curtas. E é o que vou fazer, pelo menos aqui. Então por um bom tempo ainda, postarei histórias curtas, poesias, enfim, coisas que dá pra ler em uma sentada rápida em frente ao PC.

E se algum dia eu resolver dizer que vou tentar de novo apresentar uma história longa, me envergonhem ao perguntar da história do cavaleiro, que eu vou pensar duas vezes antes de dar prosseguimento.

E obrigado a quem continua a ler as coisas, mesmo depois de tanta enrolação.